ORGANDI

sábado, março 03, 2007

Humano às 10

Na loja de bicicleta, quando eu entrei, já sabia exatamente o modelo que queria comprar. Era uma de aço de carbono, preta, com um design interessante. Eu queria a com marcha e freio – ainda que a sem marcha e com freio no pedal fosse mais barata. Pra quem anda de bicicleta como meio principal de transporte, as marchas podem evitar situações nada confortáveis, como ter de conviver a tarde toda com um futinzinho, ou com a pele melada.

A minha nova bicicleta teria o guidon alto e largo, de forma que eu adotasse uma postura ereta e pudesse apreciar a vista, sem precisar optar entre mirar o chão e um torcicolo filha da mãe.

Desconto negociado, levei minha bicicleta antiga para dentro da loja, para que fosse feita a transferência da cestinha.

É, caro leitor, o que vem depois é um desses momentos inesperados, numa manhã de sábado às 10 da manhã, em que o mundo fugazmente se desconstrói diante de nós, para novamente erguer-se, num balé de pó que implode e confunde, pra depois clarear.

Aquele vendedor que, talvez somente por sê-lo, aparentava-me de uma espécie extremamente suspeita; de forma espontânea, translúcida – e nem por isso inocente – com uma mão na cintura e outra no queixo, me perguntava por que raios eu queria trocar aquela bicicleta.

Depois de um momento de repulsa e estafa por constatar que aquele sujeito, movido não sei por que, me retirara do paraíso do consumo iminente para jogar-me, sem que ninguém lhe pedisse, no purgatório terreno das escolhas, depois disso, e de internamente já sentir a boa vontade em seus olhos casuais, pus-me a tentar entender melhor seus argumentos.

E ele era categórico: minha marcha era ótima, o quadro excelente. Um guidon que a tornasse tão confortável como a outra custaria um preço módico. Ele não faria muitos gestos, pois tinha uma câmera, mas o que a minha magrela precisava era de uma revisão. A ferrugem? A que eu estava prestes a comprar não tardaria a ficar igual.

É claro que se o seu desejo é comprar uma nova, ele disse, nada que eu fizer com esta vai te deixar satisfeita. A questão é que você vai ficar com uma bicicleta bastante inferior a que você tem, que vai precisar de revisão com muito mais freqüência, e vai ter uma vida útil menor.

Perplexa, tirei da minha caixa de pandora, quase em confissão, meu último argumento: mas a minha bicicleta é feia. Ao qual ele respondeu: Ué? E isso não é melhó? Pra num chamá atenção dos ladrão? Mas, realmente, se você qué sê Barbie, tê uma bicicleta pra desfilá... melhó comprar uma nova.

É claro que eu poderia dizer aqui em que loja tudo isso se passou, lançar quem sabe um novo ponto turístico, onde se encontra o vendedor mais íntegro do Rio de Janeiro, quiçá do mundo. O carioca mais honesto. Uma estátua seria erguida pela prefeitura, ou pela Igreja. Mas isto provavelmente o levaria a perder o emprego, no mínimo. Havendo ainda a possibilidade torná-lo procurado, sob o pretexto de ser, este pacato vendedor, uma ameaça terrorista ao sistema econômico mundial.

2 Comentários:

Blogger Anah disse...

meu amor, nao fique chateada, nao fiz por mal. Depois do seu post fiquei até pensando em mandar minha bike daqui por container quando eu for, Nutro muito amor por ela e no Rio nao tem nem parecida. A ver no que vai dar essa relacao. PAlmas pro vendedor gente boa, mas eu acho mesmo é que ele tava de segundas intencoes. hihihi. Anway, a histórias de pagar de barbie é muito boa.
Beijocas

terça-feira, março 06, 2007 8:33:00 PM  
Blogger Julieta disse...

hahahahaha ADOREI esse cara!!!

domingo, março 11, 2007 2:38:00 PM  

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