ORGANDI

sexta-feira, março 10, 2006

Sem titulo

Não sem surpresa ouviu Pedro o lamento da sua tia Clonice quando, em conversa casual, revelou sem alarde sua inédita resolução: Agora serei normal, cansei de ser diferente, ora!

O espanto de Cleonice justificava-se pelo empenho costumeiro de seu sobrinho à carreira de iconoclasta internacional, para a qual revelava excitante talento.

Acontece que tanto teimara Pedro em ser estranho que a familia passara do horror ao desprezo; do desprezo à aceitação, e desta ao apego. Até desatinarem em torcída íntima, porém cativa; proveniente quem sabe da sublimação que tal postura proporcionava aos seus próprios desejos reprimidos.

Que fique claro que havia de fato algum reconhecimento, pela parte da avó, da busca cega de Pedro por si próprio e pelo olhar (arregalado) alheio. Contentava-se Dona Emília em sorrir-lhe, e servir-lhe doces, sabiamente guardando em seu íntimo a consciência da frustração que inundaria a família caso entrasse em voga um discurso filtrado pela sinceridade.

Uma vez tomada a decisão, cabia a Pedro – além de ouvir pacientemente o desconsolo dos parentes– encontrar em seu íntimo – pois já tentara sem sucesso no Google – a essencia desta tal normalidade.

Vagou eremita pelas calçadas do Leblon, subindo pela Vinícius (o pobre preferia não procurar seu amago pelas mesas da Farme) até alcançar a Lagoa.
Caminhou calmamente por um deck e olhou-se nas águas fétidas. Lebrou por um instante da história de Narciso, pensou no espelho de sua irmã que quebrara numa briga, e finalmente que já devia ter uns três meses que não fazia sexo. Foi então desistiu de procurar mais qualquer coisa, e bebeu uma coca-cola.

2 Comentários:

Blogger Pedro Simão disse...

Todos torcem por Pedro e por si mesmos. É tão cativante quanto bonito.
...

domingo, junho 04, 2006 2:28:00 PM  
Blogger Pedro Simão disse...

Pedro cresceu...

domingo, junho 04, 2006 2:31:00 PM  

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