ORGANDI

quinta-feira, janeiro 20, 2005

Estupidez

Julia Nemirovsky
Secou naquele dia a escassa seiva remanescente nas veias pálidas. A família, embriagada de sobriedade, asfixiou-se sorridente em seu próprio saco de princípios. Racharam o chão e as paredes, dada a aridez dos corpos. No vácuo estúpido de humanidade, os talhares não mais ecoaram . Seco também era o alimento das línguas bifurcadas.
A deglutição, ritimada permaneceu mesmo quando a primeira gota do líquido viscoso espatifou-se na louça do mais senil. Irradiou-se no ambiente um odor metálico. Ainda sincronizadas foram as garfadas quando a criatura espalmou a porta pesada da sala em um movimento insolitamente leve. Diz-se que algumas entranhas atritram dado o rangido.
Bruxa languida deslizou através do cômodo. Negra era a rosa que cerrava na mão esquerda. A rosa negra tinha espinhos, e os ostentava com elegância em seu caule de traçado vacilante. E para cada gota de sangue drenada dos dedos importunos, outras dez irrigaram os leitos secos das paredes.
Nos olhos pálidos marginais refletiu-se a refeição, que não interrompeu. Somente quando dos corpos romperam as cavidades, e escorreu, sob pressão, a mágoa líquida, tombaram pelo assoalho os talheres de prata. A casa, vedada, inundou; e a família inteira padeceu.


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