Caro amigo
Por JULIA NEMIROVSKY
Esta tarde fui ajudar um conhecido, o Jr. Seu pai, bastante debilitado por uma catarata inoperável, expressava nos olhos já sem função a angustiada entrada nas trevas infinitas. Como combinado, servi-lhe o almoço. Ocupávamos a mastigação do outro com comentários inúteis, muito significantes para um velho que, pela perda de um dos sentidos, sentia-se decrépito e solitário.
Lavando a louça veio-me que o nome é apenas a mais óbvias das características herdadas por este meu endurecido colega. O pai, na ocasião, senhor desnorteado pela cegueira, falava imponentemente sobre a proliferação da violência "Os ladrões estão por todos os lados, escondidos nesta mata. O novo sistema de segurança vai fazer isto e aquilo e esse tipo de gente não vai conseguir entrar" O que fazer nesta situação?
Um velho carente e imaturo. Não há de valer mais a pena alertá-lo para as maravilhas da integração e da entrega. Ou será que há? Cada um traça seu caminho, me vejo tentada a dá-lo atenção por pura pena de sua proliferada cegueira, dos muros que ao longo dos anos construiu a sua volta. "Ele é um homem 'do bem', afinal", argumenta meigamente minha mãe.
Cada vez se torna mais difícil refutar que realmente há um carma para cada um de nós. Os nossos problemas nos envolvem, nos cutucam, riem estridentemente pelos becos sombrios da mente. Quanto mais nos esquivamos, mais o destino os esfrega em nosso focinho. Quanto mais nos fechamos, mais somos obrigados a admitir que o handicap está dentro, e que ao nos isolarmos só afastamos a possibilidade de cura.
Como é burra a raça humana. A simples impossibilidade de admitirmos que vivemos em um mundo imundo, úmido, mofado e abafado; e que somos, nós mesmos, um monte de merda, nos leva a criar mentiras, supostas verdades no que chamam de "inconsciente coletivo". Criam a ética, o bom-senso, a cultura. Encaramos estas como verdades absolutas, como inerentes a nós mesmos. Nós, animais, poeira espacial conjugada de certa forma que tornou-se possível a transcendência. Mas o destino, já se sabe, é irônico, e cria a vergonha, o pudor, a insegurança. Dá aos que menosprezamos, aos menos racionais - animais ou civilizações primitivas -, a característica que mais falta a nós mesmos: a capacidade de nos assumirmos. E com o passar dos anos nos tornamos cada vez mais dependentes de um conceito criado pela nossa dificuldade em lidar com nosso maior dom, o dom da criação, junto de seu mais essencial complemento: a falta.
Porque, meu Deus, porque a dificuldade sufocante do homem em lidar com o vazio? Porque preferimos forjar uma completude ao invés de encararmos a angústia? Como a angústia é bela. Como uma tela em branco, junto com o medo, traz o tesão. Preferimos o devaneio à análise, num surto coletivo de histeria. Subjulgamos o que há de mais belo entre nós, abolimos a poesia. E sem ela perde-se a única fagulha divina que podemos esperar que haja na humanidade. Toda a energia da vida é direcionada ao desejo, desejo de se esquecer o caminho para o gozo, caminho sofrido, que exige explosões, dor, trabalho.
Incapazes de encarar o risco que é viver, incapazes de admitir nossas limitações, mistificamos uma verdade, seja ela qual for, que atrase nosso sofrimento. A matrix está introjetada em cada um de nós, sair dela é um trabalho homeopático e individual. Pois se qualquer um, senão nós mesmo, provocar o impulso para a ampliação da consciência, a catarse em si permanecerá eternamente apenas como uma promessa. O coito se perde, tudo vira punheta. Uma punheta angustiada, uma punheta pornográfica sobre bundas de photoshop. A mão caleja, o pau sangra; mas o movimento não cessa.
Talvez daí a matrix sugue nossas forças. Creio eu que sim. O erótico perde o sentido. O sexo se torna simplesmente o coito em si, exaltado. Ao mesmo tempo em que as outras formas de sexo - de prazer entre humanos - são reprimidas. Será necessário que os ossos descarnados dos dedos se trinquem, e que, aguardando a ejaculação, a carne esfolada do pau se putrefaça para que nós percebamos a beleza dos processos?
Porém, como alertou-te um amigo, o caminho é individual. Rezo, como me ensinaste, para que consiga ver as coisas como elas realmente são. E rezo para que a minha passagem por aqui não seja em vão, e se assim houver de ser a passagem de todos nós, que ao menos seja recheada de gozos profundos e lambuzados.
Angustiadamente,
Clarice Kiehne

2 Comentários:
Ok, não me agüento mais de curiosidade. Quem é Clarice Kiehne?
Não sei se é você ou uma personagem que você criou - reflexos seus -, ou se é uma escritora famosa que eu, na minha ignorância, não conheço (não encontrei no GOOGLE).
(quase tive vergonha de comentar o seu post.. eu sempre! escrevo comments...)
Minha cara: Texto forte, bem construído, com a necessária sensibilidade. Gostei do que li. Um beijo. /Moacy/
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