ORGANDI

sábado, outubro 30, 2004

Não te Preocupa

Meu amor,

JULIA NEMIROVSKY

Escrevo para te tranqüilizar. A situação é realmente difícil. Não posso negar que o clima está propenso à falsidade e ao distanciamento. Ando triste e cansada de assim estar. Exausta, sinto-me atrasada. Uh, lá, lá, je suis en rétard! Retardatária. Enquanto uma parte se eleva, outra permanece fincada no solo. Otária.

Procuro, tateio muros enlamaçados. Com as pontas dos dedos cato uma fresta por onde possa cavar e assim mais rapidamente escapar deste labirinto em trevas. O musgo acaricia vertiginosamente minha pele. O ar chumbado, cada vez mais rarefeito, penetra lentamente em meus pulmões.

Busco o que não quero alcançar. Busco o que me prende no passado e por isso revivo certos momentos. Admito que não sei se há saída por aqui. Que o pára-quedas vai abrir, nada assegura. Nem mesmo estou segura de que existe este tal de apara-quedas. Mas, com o corpo voando desengonçado, desde o momento que do precipício decidi me atirar, procuro resistir ao vento ácido e manter meus olhos atentos.

Também não sei se consigo. Dói, que estranho. Dor que não cura com saída, que não cura com comida, não cura com bebida. Dor que dura, que dura dor. Será que tem cura? Devo acreditar, senão porque luto? Se não, somente o luto.

Ando, corro. Loucamente. Louca mente. Mente louca. Mente insana. Não, não mente, não engana. Fala, fala, faladeira. Será, das soluções, a derradeira? Falo, falo e o que digo? Dê-me ao menos uma pista verdadeira. Falo do falo, do falo falo. O que quer dizer então? O que quero dizer então? E o que não quero dizer? Então o que não quero dizer fala loucamente na minha mente insana. E, entretanto, reluto.

O pranto estraçalha a dor. Dos cacos, uma parte é amor. Do mais puro, do mais transparente, do mais valioso.
Especulo, sem dúvida. Mas se não assim, como então? Como, como, como? Adeus a angustia da gula, a Deus a sapiência da cura. E até a dura cura, paciência.

Portanto, meu amor, não te preocupa. Como podes ver, estou melhor que nunca.

Com Deus,
Clarice Kiehne

2 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Minha cara, antes de mais nada parabéns pelo criativo nome do blogue. Pois é, acho que já começou bem, que vai longe. Assim espero. Farei as visitas necessárias, sempre que possível. Um beijo. E um queijo. /Moacy/

sábado, outubro 30, 2004 4:24:00 PM  
Anonymous Anônimo disse...

Como não me preocupar Clarisse? Eu bem que lhe disse amar e tolice, bobagem, ilusão.

segunda-feira, fevereiro 14, 2005 6:24:00 PM  

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